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Os lencinhos de papel - Elaine Fonseca

Depois de um divórcio, em geral, nunca se é o mesmo. A vida muda a gente depois de uma experiência como essa. Certa vez, alguns anos após a minha separação, fiz questão de ir ao cinema, sozinha, para assistir Comer, Rezar, Amar. Eu havia lido o livro que deu origem ao filme e aquelas 300 e poucas páginas salvaram a minha vida naquele ano. Quando saiu o filme eu precisava vê-lo. Mas precisava assistí-lo sozinha, só eu e as minhas memórias, experiências, feridas, muitas ainda não cicatrizadas. Fui. Comprei uma pipoca, um refri e, corajosamente, me embrenhei na sala escura. No meio do filme eu chorava tanto que uma senhora muito simpática que estava ao meu lado me cedeu o seu pacotinho de lenços. Delicadamente, mesmo no escuro do cinema, ela encostou os lencinhos em minha mão. Sem nos olharmos, eu agradeci profunda e sinceramente pela delicadeza do ato. Com o rosto encharcado, usei-os um a um até o final do filme. Sinceramente não me lembro se, quando as luzes se acenderam, agrad...

Clarice disse - Lorena Santos

Clarice Lispector disse “viver ultrapassa qualquer entendimento”.   Hoje é aniversário de Clarice e escrevemos todas em volta da mesa. Não nascemos na Ucrânia. No máximo, umas vieram da beira do mar e outras brotaram aqui mesmo, neste cerrado em que nascem vermelhas Caliandras. Em Clarice pensamos hoje. E juntas em volta da mesa, escrevemos e partilhamos escritos. Mulheres que somos, hoje, unidas em torno deste ofício de desnudar-se através das palavras tal qual o fez Clarice, embora cada uma diferentemente. Admiro, nelas, os cabelos que caem aos olhos, os fios que escorrem pelas nucas, as canetas que correm pelo papel seguradas por mãos urgentes, e poucas vezes hesitantes, o tec tec do teclado dos laptops. Admiro a fé e a dúvida que compartilham no humano e no divino. Reconheço sua beleza e felicito-me por partilharem comigo e deixarem um pouco de seu ver e seu viver. Sentadas em volta desta mesa, não interessa se somos Clarice. Não precisamos ser. Homen...

Gentileza em tempo de selvageria - Lorena Santos

Plantar gentileza em tempos de selvageria Escolher o sim ou o não Perceber que o verde das folhas não é um único verde Cada uma em suas nuances, suas finas curvas e linhas Como rugas que caminham em nossas faces Cada tom, bandeira, água, amarelado Como os envelopes de cartas de um primeiro amor Eterno em devaneios Leve em bolhas de sabão E o não saber o que é reto, o que é correto e certo se não o íntegro de si que é nada além da matéria do sonho e o concreto do desejo e do sexo. Essa busca pelo que é lá no fundo de si Que salta daqui para ali Que não sabe mais ser contido em um continente oco que um dia coube o mundo Hoje vazio e entupido Como se pudesse ser tudo ao mesmo tempo que vácuo O ontem e o amanhã no mesmo barco porque não se sabe o que é um ou o outro E toda essa história de sim e de não é tão balela quanto essa ideia de gentileza em tempo de selvageria Suportaria talvez um dia? Duraria quem sabe o sopro de ...

CANSAÇO - Conceição Couto

Não me imagino num país governado por quem não me representa. A população armada contra os negros, contra os LGBTQs, contra as mulheres, contra si mesma, contra mim. Jogaria a toalha sem pestanejar não fosse essa vida de 11 anos a pulsar por todos os cantos do mundo. Não fosse eu a imaginá-la daqui a dez anos, crescendo num país a discriminá-la. Ainda ontem a catequista tentou ensinar que não se deve repetir as palavras do Celebrante durante a preparação do rito da Comunhão. Perguntou a ela? “ Você é o padre?” Ao que ela respondeu, “Não,  sou a Madre” - o que me encheu de orgulho, pois, no lugar dela, na minha catequese, teria baixado a cabeça e quase chorado. Era assim que as crianças se comportavam em tempos de submissão. Mas ela não. Ela sabe se defender. Disse eu para a Catequista que eu também falara junto. Eu a defendi em meu nome. Eu me defendi. Talvez por ela ainda haja dentro em mim, bem escondida, alguma resistência, mas não mais por mim. Verbal, 8 de o...

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo.  Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.  É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.   Sophia nos alerta, também, lá ...

Ele, Manjericão - Conceição Couto

Alto e imponente, ele está, na jardineira do apartamento da minha amiga. Ao entrar pela sala, o aroma é logo percebido. Em minutos, estamos na cozinha, e , enquanto uns se ocupam de fazer a massa passar delicadamente pela máquina, para , então, ser cortada, outros se revezam nos cuidados com o fruto vermelho que foi delicadamente mergulhado na água fervente para perder a pele e, depois de cozido, passado pela peneira, transformando-se em molho que a ele vê ser adicionado uma pitada de sal e de açúcar, azeite legítimo e pimenta branca. A seu lado, uma frigideira larga, que já viu gerações passarem por ali, abriga micrótomos de cebola douradamente alegres. Cebola e molho se misturam vagarosos para , então, receberem, as folhas retiradas, após pedida a licença, da jardineira, emprestando um novo aroma a cozinha. O molho não seria o mesmo sem ele. Depois,o resultado desse trabalho alquímico é generosamente colocado sobre a massa feita à mão com água, sal e farinha de castanha, passada...

Nascer todos os dias - Elaine Fonseca

Quando ele chegou ali, era tudo mato. Não tinha cercado e nem arado. A terra parecia árida, mas o coronel estava cansado de rodar o mundo atrás de um pedaço de chão. Foi assim, fugindo de uma chacina que lhe deixaria emudecido por quase uma década, que Constâncio Oliveira do Rosário chegou à Charque Seco. Naquela época nem podia ser chamado de vilarejo. Tinha apenas uns dez casebres que margeavam a ferrovia. Chegou em época de seca brava, aos 17 anos, esquálido como um boi faminto. Os pés cansados calçavam uma percatinha já muito gasta e nas costas trazia um saco de pano, com tudo o que tinha na vida: três mudas de roupa e o retrato da mãe cuja última lembrança era o olhar apavorado e um grito apavorante - Corre, Cicinho! O coronel constâncio contava essas lembranças sempre que podia e um dia a neta perguntou-lhe: - Meu avô, porque o senhor conta essa história tantas vezes? - Porque considero, Melissa, que foi nesse dia que eu nasci. Imagine, se eu contar essa história tod...