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LIBERDADE - Conceição Couto

Entrei num carro vermelho sem saber para onde ia. No vidro, um adesivo: “Cuba Livre.” A sensação de não saber onde ir me provocou conforto. Como é bom não precisar saber aonde ir. Me levem para um bom lugar. Qualquer bom lugar.O carro vermelho se destacava na rua da cidade - era o que me dizia a imagem no retrovisor. Vermelho, sangue. Vermelho, batom do bordel barato. Vermelho, paixão. Vermelho, liberdade. Aquele conforto da viagem se aninhou em mim. Continuei a olhar a imagem no retrovisor. Tudo ficava pra trás, onde eu não precisaria mais ficar. Verbal, 28 de maio de 2018.

O Café

Em um café, onde muitas histórias se passam. As histórias voam somem, porque elas só tem necessidade de estar ali, naquele café, uma só vez. Mas elas, as duas amigas escritoras, estavam ali, para resgatar aqueles contos perdidos. E, meu caro leitor, eu lhe pergunto, para que, elas estariam fazendo isso? Por que sentar em um café e escrever? Quanta inutilidade, como muitos pensam.Elas eram e são assim, fazem isto, porque está em suas almas resgatar histórias errantes. Uma tem sonhos, mas eles ainda estão há se realizar. Já a outra, ela já fez de tudo um pouco. Muito parecidas e muito distintas. Todavia, sentadas ali, naquele café, estavam apenas escrevendo e imaginando suas histórias completas e incompletas, de suas vidas ou não.

À Luta - Elaine Fonseca

Na parede, o prego. Pensei em desistir de colocar ali o panfleto que recebera na Primeiro de Dezembro, uma rua obscura e mal frequentada, na periferia da cidade. Era só um pedaço de papel meio rôto e desgastado, mas dizia: Hai que endurecer pero sin perder la ternura. E via-se o rosto de Tchê Guevara com aquela boina revolucionária.  - Por Deus. Que seja – e preguei o panfleto na parede. - A partir de agora, seus filhos da puta, sou comunista. À luta!

O não dito - Conceição Couto

                                                                                                                    Vera trouxe um objeto estranho. Fico eu pensando o que é um objeto estranho em tempos de telepatia internética e de modificação genética. Ao retumbar dos tambores, a chuva metálica cai da loja oficial de perfumes da cidade. Chuva que brinca com as gotas do silêncio e se arrasta na areia desnuda do mar em que não piso. As gotas f...

Marielle - Lorena Santos

Luta pelos outros É chamada de cachorra É negra Exige direitos Como tem a pachorra? Todo dia um 7 a 1 Vive sempre na gangorra Sem ninguém que lhe socorra E a linha é sempre fina entre o justo e a masmorra E se eu soubesse, tinha gritado: - Marielle, corra! Se eu pudesse, tinha implorado: - Marielle, não morra! créditos da foto:   Márcia Foletto/Agência O Globo https://innerbabel.blogspot.com.br/2018/03/marielle.html?m=1

Sobre dança e vida - Vera Barrozo

A bailarina que morava ali se foi.  Não disse pra onde.  Cansou.  Não queria mais passos estudados, treinados, tensos, ou não.  Não queria mais aquela dança.  Mesmo que sua roupa fosse tão linda, angelical, branquíssima como a neve. Chega de tanta delicadeza!  Chegou, pra ela.  Saiu pra conhecer os outros tipos de dança que dançavam dentro de si.  E se esbaldou.  Porque eram tantas as músicas, os movimentos, as roupas possíveis!  Eram tantos os ritmos! Até pensou: - Nossa, por que fiquei tanto tempo lá?  Mas é preciso.  É preciso ficar o tempo que não sabemos qual é,  e que descobrimos quando passa, chega, vai... e seguimos, vamos, adiante.  É.  Faz parte do processo de amadurecimento dos frutos mais deliciosos.  O tempo em que não se está em êxtase, com a vida.  Agora estou. E nada mais me prende.  E sigo o movimento que me enle...

A Bailarina - Elaine Fonseca

Olhava para os pés descanços com um olhar vazio e incoerente. A única coisa que sentia era a dor. Calejados, os dedos da bailarina eram esgarçados como as cordas de um piano velho. Nada tinham de belos aqueles pés e ela bem o sabia. Calçou as sapatilhas brancas, amarrou-as com a destreza de alguém que fazia aquilo há séculos. 3….2….1...e pliè, e um, dois e três. Ela levantou-se como uma boneca de corda e o olhar adquiriu uma tonalidade vívida. Entrou na dança saltitando lindamente, como uma garça graciosa. Apesar da dor imensa, ela sorria enquanto rodopiava perfeitamente diante do espelho imenso. Era ali, em meio à dança, que ela se sentia pertencer, viver, respirar. Como uma bailarina dentro de uma caixa de música que só se ergue para girar ao som das notas do cilindro.