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O não dito - Conceição Couto

                                                                                                                    Vera trouxe um objeto estranho. Fico eu pensando o que é um objeto estranho em tempos de telepatia internética e de modificação genética. Ao retumbar dos tambores, a chuva metálica cai da loja oficial de perfumes da cidade. Chuva que brinca com as gotas do silêncio e se arrasta na areia desnuda do mar em que não piso. As gotas f...

Marielle - Lorena Santos

Luta pelos outros É chamada de cachorra É negra Exige direitos Como tem a pachorra? Todo dia um 7 a 1 Vive sempre na gangorra Sem ninguém que lhe socorra E a linha é sempre fina entre o justo e a masmorra E se eu soubesse, tinha gritado: - Marielle, corra! Se eu pudesse, tinha implorado: - Marielle, não morra! créditos da foto:   Márcia Foletto/Agência O Globo https://innerbabel.blogspot.com.br/2018/03/marielle.html?m=1

Sobre dança e vida - Vera Barrozo

A bailarina que morava ali se foi.  Não disse pra onde.  Cansou.  Não queria mais passos estudados, treinados, tensos, ou não.  Não queria mais aquela dança.  Mesmo que sua roupa fosse tão linda, angelical, branquíssima como a neve. Chega de tanta delicadeza!  Chegou, pra ela.  Saiu pra conhecer os outros tipos de dança que dançavam dentro de si.  E se esbaldou.  Porque eram tantas as músicas, os movimentos, as roupas possíveis!  Eram tantos os ritmos! Até pensou: - Nossa, por que fiquei tanto tempo lá?  Mas é preciso.  É preciso ficar o tempo que não sabemos qual é,  e que descobrimos quando passa, chega, vai... e seguimos, vamos, adiante.  É.  Faz parte do processo de amadurecimento dos frutos mais deliciosos.  O tempo em que não se está em êxtase, com a vida.  Agora estou. E nada mais me prende.  E sigo o movimento que me enle...

A Bailarina - Elaine Fonseca

Olhava para os pés descanços com um olhar vazio e incoerente. A única coisa que sentia era a dor. Calejados, os dedos da bailarina eram esgarçados como as cordas de um piano velho. Nada tinham de belos aqueles pés e ela bem o sabia. Calçou as sapatilhas brancas, amarrou-as com a destreza de alguém que fazia aquilo há séculos. 3….2….1...e pliè, e um, dois e três. Ela levantou-se como uma boneca de corda e o olhar adquiriu uma tonalidade vívida. Entrou na dança saltitando lindamente, como uma garça graciosa. Apesar da dor imensa, ela sorria enquanto rodopiava perfeitamente diante do espelho imenso. Era ali, em meio à dança, que ela se sentia pertencer, viver, respirar. Como uma bailarina dentro de uma caixa de música que só se ergue para girar ao som das notas do cilindro.

O velório  do velho Inácio - Elaine Fonseca

O defunto estava bem no meio da sala, ao lado da vela de sete palmos. Depois do cortejo fúnebre, a procissão seguiu para a casa do falecido, o velho inácio. Algumas matronas choravam em silêncio enquanto umas poucas crianças brincavam do lado de fora.  Quando seu Quindim chegou, de braços dados com dona Nenê, foi inevitável que todos dessem um suspiro. Costumavam ser melhores amigos, mas havia muitos anos uma aperreação por conta de um bode matou o convívio. Seu Quindim nunca se conformara com a ruptura abruta, mas era orgulhoso, assim como velho Inácio. Amigos de guerra e paz, de gostos e desgostos, agora estavam frente a frente.  Seu quindim tocou as mãos do amigo, sentindo a temperatura da morte, e uma lágrima escorreu, depois mais outra, seguida de muitas outras. Um pranto copioso emudeceu a todos e quando ergueu os olhos marejados, seu Quindim apenas disse: - Diga à Quiterinha que por aqui está tudo em paz. - Dona Nenê pegou-o carinhosamente...

Mar... A-Mar... Mar-te - Talita Pinheiro

  Ali trancada em seu quarto de paredes cor de rosa, sentada no tapete, com os olhos fechados, ouvindo sua banda preferida no  walkman  que ganhou de presente no último Natal, sonhava em conhecer o mar. Sonho esse que brotou de um cartão postal que havia recebido, quando ainda estava sendo alfabetizada, de sua madrinha que se mudou para o Rio de Janeiro. Ano após ano, recebia um novo postal com imagens das mais belas praias cariocas, os quais guardava cuidadosamente em suas agendas. A cada novo cartão, crescia o seu desejo de ir à praia. Sonhava como o dia em que veria de perto toda aquela imensidão azul. E ali, no chão de seu quarto, com os olhos fechados, podia até sentir o toque da areia em seus pés descalços e a maresia permeando seus cachos soltos sob o sol. Por volta de seus dez anos de idade, o sonho, enfim, se tornou realidade. Foram dois dias e uma noite inteirinhos rodando de Brasília a Natal, em um Monza vinho ocupado por três adultos e três c...

Quando / When - Lorena Santos

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar. https://innerbabel.blogspot.com.br/2018/02/quando.html?m=1Qu When you are the shadow of a star stret ched over the world map, crossing land and water, far and close to your own constellation. When you're here and beyond, when you have everything and long for more still. When you let by gones be by gones and it is possible to be "one and still be plural". When you "see the fine line separating here and there", and upon seeing it, you're not content until you've crossed it. When you wis...