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O velório  do velho Inácio - Elaine Fonseca

O defunto estava bem no meio da sala, ao lado da vela de sete palmos. Depois do cortejo fúnebre, a procissão seguiu para a casa do falecido, o velho inácio. Algumas matronas choravam em silêncio enquanto umas poucas crianças brincavam do lado de fora.  Quando seu Quindim chegou, de braços dados com dona Nenê, foi inevitável que todos dessem um suspiro. Costumavam ser melhores amigos, mas havia muitos anos uma aperreação por conta de um bode matou o convívio. Seu Quindim nunca se conformara com a ruptura abruta, mas era orgulhoso, assim como velho Inácio. Amigos de guerra e paz, de gostos e desgostos, agora estavam frente a frente.  Seu quindim tocou as mãos do amigo, sentindo a temperatura da morte, e uma lágrima escorreu, depois mais outra, seguida de muitas outras. Um pranto copioso emudeceu a todos e quando ergueu os olhos marejados, seu Quindim apenas disse: - Diga à Quiterinha que por aqui está tudo em paz. - Dona Nenê pegou-o carinhosamente...

Mar... A-Mar... Mar-te - Talita Pinheiro

  Ali trancada em seu quarto de paredes cor de rosa, sentada no tapete, com os olhos fechados, ouvindo sua banda preferida no  walkman  que ganhou de presente no último Natal, sonhava em conhecer o mar. Sonho esse que brotou de um cartão postal que havia recebido, quando ainda estava sendo alfabetizada, de sua madrinha que se mudou para o Rio de Janeiro. Ano após ano, recebia um novo postal com imagens das mais belas praias cariocas, os quais guardava cuidadosamente em suas agendas. A cada novo cartão, crescia o seu desejo de ir à praia. Sonhava como o dia em que veria de perto toda aquela imensidão azul. E ali, no chão de seu quarto, com os olhos fechados, podia até sentir o toque da areia em seus pés descalços e a maresia permeando seus cachos soltos sob o sol. Por volta de seus dez anos de idade, o sonho, enfim, se tornou realidade. Foram dois dias e uma noite inteirinhos rodando de Brasília a Natal, em um Monza vinho ocupado por três adultos e três c...

Quando / When - Lorena Santos

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar. https://innerbabel.blogspot.com.br/2018/02/quando.html?m=1Qu When you are the shadow of a star stret ched over the world map, crossing land and water, far and close to your own constellation. When you're here and beyond, when you have everything and long for more still. When you let by gones be by gones and it is possible to be "one and still be plural". When you "see the fine line separating here and there", and upon seeing it, you're not content until you've crossed it. When you wis...

Rosas, cravos, margaridas - Eriane Gonçalves

Rosas, cravos, margaridas, flores do campo, há quanto tempo não sentia paz? Deitada aqui me parece que o tempo está suspenso, a imobilidade física contaminando minha mente, ponto, tudo em ponto morto, de olhos cerrados vejo minhas mãos entrelaçadas, unhas vermelhas em dedos longilíneos, por que escolhi pintá-las de vermelho-vivo? O vivo, quero mais vida, menos sofrimento, menos do que tenho, a cor assentou como se fizesse parte de mim, cor-sangue, sangue-vivo.  Meus cabelos ganharam vida, reflexos dourados, solar, mudança, ah! mudança tão bem-vinda e a razão de todo o desejo de agora, há oito anos nada disso era possibilidade, há oito anos, minha vida mudou, eu mudei, eu gerei, agora, essa paz estranha e benfazeja. Nada de gritos de crianças, de marido, de mãe, nada, nada, nenhum olhar paterno de decepção, paz, paz solarmente vermelha, nem este cheiro enjoativo me atrapalha e eu sempre tão sensível a odores florais, nada, nada, nada me atordoa, um dia o silêncio me aterror...

Na, o tal - Carolina Leal

Na, o tal, aparece sempre. Faça chuva, sol, tempestade ou neve, todo final de ano, mais especificamente na última semana , ali está ele. Entre luzes e enfeites, sacolas cheias e empurra-empurra, comilança, embriaguez, gritos, verdades reveladas, fogos e facadas, lá está Na, o tal. E no cantinho de cada cena, deitado na simplicidade de sua manjedoura, o menino a tudo espia. Créditos da foto: https://images.google.com.br/imgres?imgurl=http%3A%2F%2Ff.i.uol.com.br%2Ffotografia%2F2012%2F12%2F15%2F220582-970x600-1.jpeg&imgrefurl=http%3A%2F%2Ffotografia.folha.uol.com.br%2Fgalerias%2F12232-compras-de-natal-na-rua-25-de-marco&docid=KRUAkcgdS8-rVM&tbnid=JL48MurYoy9QeM%3A&vet=1&w=970&h=600&source=sh%2Fx%2Fim 

CHEIRO DE SAUDADE - Conceição Couto

         Frescor. Era assim o cheiro dela - pelo menos, do que eu lembro, ou o que a fantasia me ajudou a construir. Era com esse cheiro que ela me beijava a testa todas as manhãs, vestida no costumeiro saia e blusa para ir ao trabalho. Eu ia com um beijo na testa para a escola e lá ficávamos: eu e o beijo. Só a encontrava novamente à noite, já cansada do trabalho. Lembro-me do seu abraço quando a professora - sem eu saber - disse que eu tinha ficado em quarto lugar no ano letivo. Ela me abraçou quando eu queria o primeiro lugar. Quando me chamaram de “Bolinha”, ela foi à escola falar com os meus colegas, e eu nem tinha me importado com o apelido . Blusa de linho com o nome da escola bordado. Saia plissada azul-marinho. Sapatos de couro e meias brancas. Era assim também que ela demonstrava o seu capricho. Na primeira comunhão, tive medo da vela, pois podia, em contato com o véu, pegar fogo, disseram...

Eu, Vaso - Conceição Couto

Sou a testemunha sensível De tons e cheiros A invadirem narinas E olhos ávidos. Carrego em mim A água A manter a vida A se transformar Sou o que contém e acolhe Vazio ou cheio Decoro, enfeito e eternizo