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Hoje não é dia do índio - Karenina Bispo

                                            Créditos da foto: Folha de São Paulo O “Dia do Índio” Eu me senti instada a falar de mim. No dia 19 de abril, foi lembrado do dique costumávamos chamar de “Dia do Índio”. No Instagram eu fiz a publicação de um Reels em que alguns indígenas falam da diversidade de seus povos, populações que já estavam aqui e habitavam este país quando houve a invasão portuguesa que dizimou a maior parte dessas populações e apagou sua cultura e existência. “Hoje não é dia do índio” dizia o vídeo.  Falando de mim, eu devo admitir que já fui essa pessoa que questionou a “legitimidade desses povos” e questionei à época se ainda “existia índio” no Brasil, sendo estes civilizados. Mas que grande preconceito, não é mesmo? Admito também que já fui uma pessoa contra cotas, fossem elas quais fossem. Mas nossa! Como o tempo passou e me fez...

The kind of person who lights candles - Lorena Santos

  I am the kind of person who lights candles. This is now, not then. it is a recently acquired habit, one that has done me well. I light up candles every day. In the beginning of each class I set up an intention, I focus and I light the candle. I ask myself to be the light, to be the container, not the conduit. I am now the kind of person Who walks barefoot on the grass of my backyard and lets herself shower in the improbable rain of Brasilia in May. The four elements rest now on my desk making my therapist smile when told about them, making her proud of myself and my journey. I am the kind of person that feels the connection with the elements, and nature and the universe, so new. I am again a newborn being. And it is not the first time, I have once died and it’s no secret. This time, however, I did not have to die. I had only to shed the old skin, the one who served me no more. I am still the kind of person who looks in the mirror and who wonders who this new being is. This new s...

É preciso ir para algum lugar? - Vera Barrozo

  É preciso ir para algum lugar? Parei. Aqui. Ao sol. Nessa cidade que não conheço... bebo uma água com limão. Pessoas caminham...  Passam. Estar...  Estar aqui.  É Paris. (Foi tanto tempo pra chegar aqui!) Agora cheguei. Nessa mesa... E já cá não estou. Porque as letras, os rumos, os objetivos de um itinerário turístico escrito por alguém – mais provavelmente dezenas – ou centenas – de pessoas me pretende dizer o que devo fazer para... (ter estado aqui) ... agora, que cheguei aqui. Não basta estar. Não basta respirar. (Se estou em Paris, há um roteiro inteiro: enorme, quilométrico, longo, antigo, moderno...) NADA de minusculinidades... Quem é você... Que vem a Paris  para sorver  o  ar da  luz  que é  re fle ti da  ao seu redor???

Mulheres no caminho - Vera Lucy Barrozo

  Juntas íamos. Andávamos com dificuldade, não sabíamos bem porquê. Estávamos acostumadas àquele lugar, quase sem vento. Ar parado. O-ar-parado. A montanha azul à frente... nos guiando, chamando. Era quente. Minha mãe de repente fez um movimento estranho e colocou a mão no pescoço. Um som saiu de sua boca em agonia. Não podíamos sentar nem deitar. O chão estava quente demais. Só nossos pés o aguentavam:  - já tinham criado peles e peles ... para se protegerem - Ela, então, deitou-se em mim, nas minhas costas. Foi como pude propiciar-lhe uma cama para relaxar. E assim buscar a melhor forma de  respir(-)ar.

Sobre os artistas - Para Bruno Sandes - Lorena Santos

  Créditos da imagem: Jacobs School of Music Marketing and Publicity

A História de José - Thaís Dorneles Pinto

José tratava a si mesmo com desleixo, deixava o cabelo comprido e embaraçado. Sua magreza tornaria qualquer roupa larga demais. Andava tropeçando nas calças, que só se mantinham no corpo por conta de um velho cinto de couro, preso sempre no último espaço.  Nas raras vezes em que saía de casa, as crianças da vizinhança, entre risos de deboche, o chamavam de “náufrago”. Ignorava os olhares dos adultos, mas aqueles pequenos diabinhos lhe entravam na carne. Uma a uma, as tarefas rotineiras da vida haviam se tornado um estorvo. Demandavam uma energia extraordinária e José, eventualmente, as aboliu. Olhava para si mesmo com assombro, sabia que se tornara um ser estranho, um personagem.  Encontrara o mínimo denominador comum para manter-se vivo. Sobrevivia do que era desprezado pelos outros, comida estragada, água salobra, roupas rasgadas... A casa pequena de madeira herdada do avô era a única barreira à indigência.  Embora fosse pouco frequente, o único traço de dignidade que p...

Alegria - Mariana Munhoz

A alegria tem o som da voz da minha avó perguntando como foi o meu dia. Tem também o som da música que ouvi com minha mãe num dia feliz. A alegria não faz barulho incômodo. É cadência de notas musicais que se combinam, em ritmo perfeito e harmonia em escala maior. É mesmo como música gostosa de escutar. A alegria tem o som da chave virando na porta quando meu amor volta para casa.