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Gentileza em tempo de selvageria - Lorena Santos

Plantar gentileza em tempos de selvageria Escolher o sim ou o não Perceber que o verde das folhas não é um único verde Cada uma em suas nuances, suas finas curvas e linhas Como rugas que caminham em nossas faces Cada tom, bandeira, água, amarelado Como os envelopes de cartas de um primeiro amor Eterno em devaneios Leve em bolhas de sabão E o não saber o que é reto, o que é correto e certo se não o íntegro de si que é nada além da matéria do sonho e o concreto do desejo e do sexo. Essa busca pelo que é lá no fundo de si Que salta daqui para ali Que não sabe mais ser contido em um continente oco que um dia coube o mundo Hoje vazio e entupido Como se pudesse ser tudo ao mesmo tempo que vácuo O ontem e o amanhã no mesmo barco porque não se sabe o que é um ou o outro E toda essa história de sim e de não é tão balela quanto essa ideia de gentileza em tempo de selvageria Suportaria talvez um dia? Duraria quem sabe o sopro de ...

CANSAÇO - Conceição Couto

Não me imagino num país governado por quem não me representa. A população armada contra os negros, contra os LGBTQs, contra as mulheres, contra si mesma, contra mim. Jogaria a toalha sem pestanejar não fosse essa vida de 11 anos a pulsar por todos os cantos do mundo. Não fosse eu a imaginá-la daqui a dez anos, crescendo num país a discriminá-la. Ainda ontem a catequista tentou ensinar que não se deve repetir as palavras do Celebrante durante a preparação do rito da Comunhão. Perguntou a ela? “ Você é o padre?” Ao que ela respondeu, “Não,  sou a Madre” - o que me encheu de orgulho, pois, no lugar dela, na minha catequese, teria baixado a cabeça e quase chorado. Era assim que as crianças se comportavam em tempos de submissão. Mas ela não. Ela sabe se defender. Disse eu para a Catequista que eu também falara junto. Eu a defendi em meu nome. Eu me defendi. Talvez por ela ainda haja dentro em mim, bem escondida, alguma resistência, mas não mais por mim. Verbal, 8 de o...

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo.  Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.  É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.   Sophia nos alerta, também, lá ...

Ele, Manjericão - Conceição Couto

Alto e imponente, ele está, na jardineira do apartamento da minha amiga. Ao entrar pela sala, o aroma é logo percebido. Em minutos, estamos na cozinha, e , enquanto uns se ocupam de fazer a massa passar delicadamente pela máquina, para , então, ser cortada, outros se revezam nos cuidados com o fruto vermelho que foi delicadamente mergulhado na água fervente para perder a pele e, depois de cozido, passado pela peneira, transformando-se em molho que a ele vê ser adicionado uma pitada de sal e de açúcar, azeite legítimo e pimenta branca. A seu lado, uma frigideira larga, que já viu gerações passarem por ali, abriga micrótomos de cebola douradamente alegres. Cebola e molho se misturam vagarosos para , então, receberem, as folhas retiradas, após pedida a licença, da jardineira, emprestando um novo aroma a cozinha. O molho não seria o mesmo sem ele. Depois,o resultado desse trabalho alquímico é generosamente colocado sobre a massa feita à mão com água, sal e farinha de castanha, passada...

Nascer todos os dias - Elaine Fonseca

Quando ele chegou ali, era tudo mato. Não tinha cercado e nem arado. A terra parecia árida, mas o coronel estava cansado de rodar o mundo atrás de um pedaço de chão. Foi assim, fugindo de uma chacina que lhe deixaria emudecido por quase uma década, que Constâncio Oliveira do Rosário chegou à Charque Seco. Naquela época nem podia ser chamado de vilarejo. Tinha apenas uns dez casebres que margeavam a ferrovia. Chegou em época de seca brava, aos 17 anos, esquálido como um boi faminto. Os pés cansados calçavam uma percatinha já muito gasta e nas costas trazia um saco de pano, com tudo o que tinha na vida: três mudas de roupa e o retrato da mãe cuja última lembrança era o olhar apavorado e um grito apavorante - Corre, Cicinho! O coronel constâncio contava essas lembranças sempre que podia e um dia a neta perguntou-lhe: - Meu avô, porque o senhor conta essa história tantas vezes? - Porque considero, Melissa, que foi nesse dia que eu nasci. Imagine, se eu contar essa história tod...

Quatro velhas bruxas

Quatro velhas bruxas reuniram-se em torno do fogo, em uma noite sem lua. Seus brancos véus de gaze cobriam cabeça e colo. Arrastavam suas alvas túnicas pelo barro vermelho. As barras das vestes sujas pelo barro pareciam manchadas de rubro sangue. Os panos fluidos e finos cobriam corpos fantasmagóricos e esquálidos.  Quatro velhas bruxas reuniram-se em círculo, em torno do fogo, e decretaram: "Ao final da trigésima noite, do oitavo mês, do último ano, do vigésimo primeiro século, as águas criadas pelo homem no umbigo do mundo se erguerão e engolirão cidade, campo, homem e animal." Em círculo, em uma noite sem lua, quatro velhas bruxas determinaram que, a partir de então, não haveria mais setembro.   Para mais textos de Lorena Santos, visite: http://innerbabel.blogspot.com

LIBERDADE - Conceição Couto

Entrei num carro vermelho sem saber para onde ia. No vidro, um adesivo: “Cuba Livre.” A sensação de não saber onde ir me provocou conforto. Como é bom não precisar saber aonde ir. Me levem para um bom lugar. Qualquer bom lugar.O carro vermelho se destacava na rua da cidade - era o que me dizia a imagem no retrovisor. Vermelho, sangue. Vermelho, batom do bordel barato. Vermelho, paixão. Vermelho, liberdade. Aquele conforto da viagem se aninhou em mim. Continuei a olhar a imagem no retrovisor. Tudo ficava pra trás, onde eu não precisaria mais ficar. Verbal, 28 de maio de 2018.