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Rosas, cravos, margaridas - Eriane Gonçalves

Rosas, cravos, margaridas, flores do campo, há quanto tempo não sentia paz? Deitada aqui me parece que o tempo está suspenso, a imobilidade física contaminando minha mente, ponto, tudo em ponto morto, de olhos cerrados vejo minhas mãos entrelaçadas, unhas vermelhas em dedos longilíneos, por que escolhi pintá-las de vermelho-vivo? O vivo, quero mais vida, menos sofrimento, menos do que tenho, a cor assentou como se fizesse parte de mim, cor-sangue, sangue-vivo.  Meus cabelos ganharam vida, reflexos dourados, solar, mudança, ah! mudança tão bem-vinda e a razão de todo o desejo de agora, há oito anos nada disso era possibilidade, há oito anos, minha vida mudou, eu mudei, eu gerei, agora, essa paz estranha e benfazeja. Nada de gritos de crianças, de marido, de mãe, nada, nada, nenhum olhar paterno de decepção, paz, paz solarmente vermelha, nem este cheiro enjoativo me atrapalha e eu sempre tão sensível a odores florais, nada, nada, nada me atordoa, um dia o silêncio me aterror...

Na, o tal - Carolina Leal

Na, o tal, aparece sempre. Faça chuva, sol, tempestade ou neve, todo final de ano, mais especificamente na última semana , ali está ele. Entre luzes e enfeites, sacolas cheias e empurra-empurra, comilança, embriaguez, gritos, verdades reveladas, fogos e facadas, lá está Na, o tal. E no cantinho de cada cena, deitado na simplicidade de sua manjedoura, o menino a tudo espia. Créditos da foto: https://images.google.com.br/imgres?imgurl=http%3A%2F%2Ff.i.uol.com.br%2Ffotografia%2F2012%2F12%2F15%2F220582-970x600-1.jpeg&imgrefurl=http%3A%2F%2Ffotografia.folha.uol.com.br%2Fgalerias%2F12232-compras-de-natal-na-rua-25-de-marco&docid=KRUAkcgdS8-rVM&tbnid=JL48MurYoy9QeM%3A&vet=1&w=970&h=600&source=sh%2Fx%2Fim 

CHEIRO DE SAUDADE - Conceição Couto

         Frescor. Era assim o cheiro dela - pelo menos, do que eu lembro, ou o que a fantasia me ajudou a construir. Era com esse cheiro que ela me beijava a testa todas as manhãs, vestida no costumeiro saia e blusa para ir ao trabalho. Eu ia com um beijo na testa para a escola e lá ficávamos: eu e o beijo. Só a encontrava novamente à noite, já cansada do trabalho. Lembro-me do seu abraço quando a professora - sem eu saber - disse que eu tinha ficado em quarto lugar no ano letivo. Ela me abraçou quando eu queria o primeiro lugar. Quando me chamaram de “Bolinha”, ela foi à escola falar com os meus colegas, e eu nem tinha me importado com o apelido . Blusa de linho com o nome da escola bordado. Saia plissada azul-marinho. Sapatos de couro e meias brancas. Era assim também que ela demonstrava o seu capricho. Na primeira comunhão, tive medo da vela, pois podia, em contato com o véu, pegar fogo, disseram...

Eu, Vaso - Conceição Couto

Sou a testemunha sensível De tons e cheiros A invadirem narinas E olhos ávidos. Carrego em mim A água A manter a vida A se transformar Sou o que contém e acolhe Vazio ou cheio Decoro, enfeito e eternizo

Pureza - Carolina Leal – 28/08/2017

Artista: Fernando Botero Pureza era gorda, de peitos fartos, gargalhada alta, sorriso aberto. De todas as cafetinas que ali passaram, era a mais humana. As meninas até a chamavam carinhosamente de “mainha”. Apesar disso, Pureza não se deixava enganar. Sabia tudo o que se passava entre as quatro, oito, doze, dezesseis, sabe-se lá quantas paredes daquele bordel. Corriam boatos de que Pureza era virgem. Que apesar dos anos de profissão, nunca havia se deitado com homem algum. Os considerava torpes e traiçoeiros.  Muitos tentaram lhe comprar a noite, mas Pureza não tinha preço. Disso não se tinha dúvidas.

A Creek under the Moonlight - Natália Gonçalves

Créditos da foto: Lorena Santos @loresinnerbabel One step after another. A little girl learns to run before she walks. One step after another. Laura learns how to leap before she looks. Little feet dangling in the air, arms drawing lines along the living room.  Near the house she grew up in, there is a creek. Its limpid waters allow for a privileged view of all the wild life taking place beneath the surface. Through the cold water one can see rocks in the bottom, they are black, white, and brown. By the creek, there are enormous trees whose leaves are an array of bright shades of red, orange, and purple.  Near the house she grew up in, there are tiny fireflies that used to light Laura’s path when she was running towards the creek. When it was dark, stars came down from the sky to dance with her. One step after another. They waltzed. The little girl knew then that her life would be filled with wondrous adventures. She was certain she could be anything she dreamt of,...

O Esquartejador - Eriane Gonçalves

Créditos da foto:  http://www.theprojecttwins.com/ Havia amado mulheres delgadas e  brancas. Abandonou-as, porque se tornara arriscado. Sentia falta de suas partes, sempre tão saborosas; porém, agora, seu desvario eram palavras. Queria-as assim como quis mulheres: as partes, o tecido, a superfície, as entranhas.  Iniciou com leituras minuciosas. Estudou textos, parágrafos, frases, orações, até chegar à palavra, ao radical e ao morfema. Sentindo-se seguro, passou a escrever todos os dias e a, minuciosamente acadêmico, desescrever: dissecava e retalhava parágrafos, frases, orações. Ao se deparar com a palavra, acariciava seu radical, aglutinando-se a ela lentamente. Ao violar o tema, em injustapostas posições, atentava para não haver fecundação. O inóspito e a aridez remetia-o ao gozo.  Amava o texto delgado e branco. Cada elemento regressivamente estudado: o todo não lhe interessava. Seduzia-o a frase morficamente perfeita. Penetrar as partes era sua lascívia. Viveu a...