Pular para o conteúdo principal

Postagens

CANSAÇO - Conceição Couto

Não me imagino num país governado por quem não me representa. A população armada contra os negros, contra os LGBTQs, contra as mulheres, contra si mesma, contra mim. Jogaria a toalha sem pestanejar não fosse essa vida de 11 anos a pulsar por todos os cantos do mundo. Não fosse eu a imaginá-la daqui a dez anos, crescendo num país a discriminá-la. Ainda ontem a catequista tentou ensinar que não se deve repetir as palavras do Celebrante durante a preparação do rito da Comunhão. Perguntou a ela? “ Você é o padre?” Ao que ela respondeu, “Não,  sou a Madre” - o que me encheu de orgulho, pois, no lugar dela, na minha catequese, teria baixado a cabeça e quase chorado. Era assim que as crianças se comportavam em tempos de submissão. Mas ela não. Ela sabe se defender. Disse eu para a Catequista que eu também falara junto. Eu a defendi em meu nome. Eu me defendi. Talvez por ela ainda haja dentro em mim, bem escondida, alguma resistência, mas não mais por mim. Verbal, 8 de o...

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo.  Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.  É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.   Sophia nos alerta, também, lá ...

Ele, Manjericão - Conceição Couto

Alto e imponente, ele está, na jardineira do apartamento da minha amiga. Ao entrar pela sala, o aroma é logo percebido. Em minutos, estamos na cozinha, e , enquanto uns se ocupam de fazer a massa passar delicadamente pela máquina, para , então, ser cortada, outros se revezam nos cuidados com o fruto vermelho que foi delicadamente mergulhado na água fervente para perder a pele e, depois de cozido, passado pela peneira, transformando-se em molho que a ele vê ser adicionado uma pitada de sal e de açúcar, azeite legítimo e pimenta branca. A seu lado, uma frigideira larga, que já viu gerações passarem por ali, abriga micrótomos de cebola douradamente alegres. Cebola e molho se misturam vagarosos para , então, receberem, as folhas retiradas, após pedida a licença, da jardineira, emprestando um novo aroma a cozinha. O molho não seria o mesmo sem ele. Depois,o resultado desse trabalho alquímico é generosamente colocado sobre a massa feita à mão com água, sal e farinha de castanha, passada...

Nascer todos os dias - Elaine Fonseca

Quando ele chegou ali, era tudo mato. Não tinha cercado e nem arado. A terra parecia árida, mas o coronel estava cansado de rodar o mundo atrás de um pedaço de chão. Foi assim, fugindo de uma chacina que lhe deixaria emudecido por quase uma década, que Constâncio Oliveira do Rosário chegou à Charque Seco. Naquela época nem podia ser chamado de vilarejo. Tinha apenas uns dez casebres que margeavam a ferrovia. Chegou em época de seca brava, aos 17 anos, esquálido como um boi faminto. Os pés cansados calçavam uma percatinha já muito gasta e nas costas trazia um saco de pano, com tudo o que tinha na vida: três mudas de roupa e o retrato da mãe cuja última lembrança era o olhar apavorado e um grito apavorante - Corre, Cicinho! O coronel constâncio contava essas lembranças sempre que podia e um dia a neta perguntou-lhe: - Meu avô, porque o senhor conta essa história tantas vezes? - Porque considero, Melissa, que foi nesse dia que eu nasci. Imagine, se eu contar essa história tod...

Quatro velhas bruxas

Quatro velhas bruxas reuniram-se em torno do fogo, em uma noite sem lua. Seus brancos véus de gaze cobriam cabeça e colo. Arrastavam suas alvas túnicas pelo barro vermelho. As barras das vestes sujas pelo barro pareciam manchadas de rubro sangue. Os panos fluidos e finos cobriam corpos fantasmagóricos e esquálidos.  Quatro velhas bruxas reuniram-se em círculo, em torno do fogo, e decretaram: "Ao final da trigésima noite, do oitavo mês, do último ano, do vigésimo primeiro século, as águas criadas pelo homem no umbigo do mundo se erguerão e engolirão cidade, campo, homem e animal." Em círculo, em uma noite sem lua, quatro velhas bruxas determinaram que, a partir de então, não haveria mais setembro.   Para mais textos de Lorena Santos, visite: http://innerbabel.blogspot.com

LIBERDADE - Conceição Couto

Entrei num carro vermelho sem saber para onde ia. No vidro, um adesivo: “Cuba Livre.” A sensação de não saber onde ir me provocou conforto. Como é bom não precisar saber aonde ir. Me levem para um bom lugar. Qualquer bom lugar.O carro vermelho se destacava na rua da cidade - era o que me dizia a imagem no retrovisor. Vermelho, sangue. Vermelho, batom do bordel barato. Vermelho, paixão. Vermelho, liberdade. Aquele conforto da viagem se aninhou em mim. Continuei a olhar a imagem no retrovisor. Tudo ficava pra trás, onde eu não precisaria mais ficar. Verbal, 28 de maio de 2018.

O Café

Em um café, onde muitas histórias se passam. As histórias voam somem, porque elas só tem necessidade de estar ali, naquele café, uma só vez. Mas elas, as duas amigas escritoras, estavam ali, para resgatar aqueles contos perdidos. E, meu caro leitor, eu lhe pergunto, para que, elas estariam fazendo isso? Por que sentar em um café e escrever? Quanta inutilidade, como muitos pensam.Elas eram e são assim, fazem isto, porque está em suas almas resgatar histórias errantes. Uma tem sonhos, mas eles ainda estão há se realizar. Já a outra, ela já fez de tudo um pouco. Muito parecidas e muito distintas. Todavia, sentadas ali, naquele café, estavam apenas escrevendo e imaginando suas histórias completas e incompletas, de suas vidas ou não.