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Árvore - Ana Keller


 

Tenho de sair porta afora! Quase como se, se não o fizer, interrompo o fluxo respiratório.
E não apenas porta afora, mas árvore a dentro.
Qual será dessa vez? O templo no qual vou entrar? Ah ! Lá está ela !
Parece ferida no tronco. Não, não é uma ferida. É uma cicatriz. Uma cicatriz aberta.
Mostra que a criatura já superou a dor, mas continua exibindo o tamanho do ataque que sofreu.
Quando Ela, no topo, se abre em galhos, esses são robustos ao invés de elegantes como os que costumo apreciar.
Como são os cactos nos desertos.
Ah ! Entendo a experiência desse Templo em que penetro agora !
Esqueço-me de onde venho e nem me importo para onde vou.
Respiro a abundância do meu dentro. Sinto as carnes, as veias e os nervos incharem-se. Está imenso o meu interior.
E não é preciso pensar, nem elaborar nada.
Basta deixar a língua passear nos lábios e saborear essa montanha de Eu que Sou entre as paredes do meu Templo.
O rito prossegue e sinto toda a gente que Sou sendo abençoada.
Circulo desde as raízes da minha Igreja Mãe até o campanário, onde ainda não é o momento de fazer ecoar o sino.
Tenho de beber mais seiva e me fortalecer.
Bem mais tarde estarei pronta para, novamente, andar com minhas cicatrizes abertas, esculturais e belas !
É uma galharia gorda. Suculenta.
Se fora é deserto, dentro é oceano.
Tem cheiro de Mirra, tem cheiro de Sagrado.
Não ! Não quero que me localizem. Ainda não !






Créditos da Foto: Autor não identificado. Agradecemos informações. 

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