Pular para o conteúdo principal

Brigadeiro - Lorena Santos

Uma panela velhinha, o fundo equilibra-se instável na boca do fogo baixo. As alças foram repostas há vinte, trinta anos... A panela tem mais. As alças pretas combinam hoje com as diversas manchas negras de tempo e de uso. Hoje em meio ao isolamento social que ultrapassa os cem dias, eu fiz brigadeiro naquela panela.  A mesma receita que era dela: Uma lata de leite condensado, quatro colheres de chocolate, bem cheias, e duas colheres de manteiga ,tão cheias quanto as outras. Cada volta da colher me levou de novo à ela, a seu sorriso, a seu cantarolar e sua voz me sussurrou, mais uma vez, que o ponto é quando a gente vira a panela e a massa brilhante do doce movimenta-se una e uniforme, deixando aparecer a  que ficou no fundo. “Não raspe a panela! Deixe cair em um prato fundo apenas o que se solta dela.” O que fica, com seus furinhos aerados, é a raspa. É, talvez, como o passado do brigadeiro. A gente pode até degusta-la um pouquinho, voltar a ela, mas ela não segue para a festa. A raspa endurece e estraga o doce.

As orientações continuam comigo em sua voz. Não untei o prato fundo com manteiga, também não enrolarei os docinhos nas mãos meladas de margarina, nem rolarei as bolinhas em chocolate granulado para depositá-las em forminhas de papel rosa, azul e branco. Não haverá festa. Estamos todos em casa, sempre. Por vezes, cansamos uns dos outros. Só temos a nós mesmos e o mundo insiste em criar novas pressões e inseguranças. “Não, ninguém volta à escola se não for seguro!”

Hoje fiz o primeiro brigadeiro da quarentena, o primeiro em muito tempo. Para agradar as filhas que enfrentam esse fim de mundo melhor que eu, recorro à minha mãe e sua panelinha mágica de brigadeiro. Ela tem me aparecido em sonhos nessa quarentena. Mônica me disse que alguns diriam ser mais que sonhos. Há tanto não a via. Há tanto não sonhava. Ela me visita também no fazer do doce, em sua serenidade, voz tranquila e força. O que ela acharia dessa pandemia? O quanto sofreria com esse nosso Brasil que engatou a marcha ré? O que diria dessa quarentena? “Minha comadre, cada um como pode, cada um como pode, cada um...” Entre uma noite de lágrimas e um dia de músicas e sorrisos, talvez ela cantaria.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 Água sólida, Água líquida, Água gasosa;  Água viva, Água morta, Água parada;  Água doce, Água salgada, Água que me faz viver a cada passada;  Água do rio, Água neutra, Água do mar;  Água desperdiçada Água suja Água que cai em pé e corre deitada;   Água pura, Água tratada, Água reutilizada;  Água, Água,...,  Água, Água….,   Água que deságua no lago paranoá  Água cristalina,  Água do céu;  “Água de beber camará”

Receita aromática - Amanda Wanderley

Para sentir o cheiro da raiva, misture uma pitada de grosseria, ¾ de xícara de impaciência, um punhado de intolerância, uma colher de sopa de pisada no pé, um sachê de celular ligado no cinema, uma dose de andar sem máscara na pandemia e ½ colher de pernas pra que te quero. Mexa bem e inale antes de dormir.

Brasília - 1993 - Cecília Aprigliano

Brasília foi uma grande surpresa em minha vida. Outros rostos, outra paisagem.  A minha vinda para Brasília teve um gosto de festa. Estava com medo, mas a novidade de tudo me fazia ficar tão atordoadamente feliz.  Brasília era um mundo de horizontes em todos os sentidos. No geográfico, no emocional e no profissional. A geografia era obviamente tão distinta de tudo que eu estava acostumada, mas era maravilhoso. O sol brilhava muito forte, a luz entrava nos olhos e no nosso corpo de uma forma quase revigorante. Recordo-me do dia que cheguei : a o sair do aeroporto a luz do sol invadiu  meu  corpo, através dos olhos, que não esperavam uma luminosidade tão intensa.   Fui tão bem recebida pela Brasília de amplos horizontes e por amigos queridos. Ia caminhando pelas superquadras com a certeza de que podia viver ali.  A minha profissão  ia crescer aqui, mas eu ainda não sabia.  Logo na chegada procurei colegas de profissão para entender as mi...