Pular para o conteúdo principal

Esse ano - Wandréa Marcinoni

Esse ano eu quase me afoguei. Chegamos de Taxi. Ele desceu correndo, alegria nos olhos e a velocidade feroz que só as crianças sabem ter. Entrou no mar e não deu pé. Entrei atrás e a onda em turbilhão nos levou por um breve segundo de uma eternidade. Alguém nos salvou. Esse ano, eu quase me afoguei.

Esse ano eu sangrei. Estava na sala em frente à TV. Foi como um martelar de um prego no dedo. Uma dor. Foi como um tiro. Na verdade foram 180 tiros no carro comum. Foi família e sonhos derramados em uma poça vermelha. Foi um coração que parou. Doeu por toda uma eternidade. A dor tinha cor preta, brilhante, luminosa, preta cor de pele. Esse ano eu sangrei mais de uma vez. 

Esse ano eu caí, mas caí de joelhos. Caí junto com a mãe com a camisa da escola com mancha vermelha empunhada. Caí porque ele falou que com roupa da escola haveria respeito. Mas ele caiu e caí de joelhos. Caí com a mãe que sabe da dor infinita e inexplicável da perda do amor mais bonito. Esse ano eu caí. E caí de joelhos.

Esse ano eu parei. Eu parei com a Kombi alvejada pela bala que saiu da arma que resvalou no poste e entrou na alma. Eu parei num tempo e num espaço que não me pertence. Eu parei na inocência da criança que morre no sonho de bailarina. Paro na esperança e no desejo de ser tudo e não ser. Esse ano eu parei.

Mas esse ano eu vivi. Vivi para ver o menino negro da periferia passar embaixo do pilotis e dizer que seu plano é a advocacia. Eu vivi pra sonhar que dá pra ser verdade, que é possível e aí renasci.

Ano que vem continuo o jargão do poeta: "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 Água sólida, Água líquida, Água gasosa;  Água viva, Água morta, Água parada;  Água doce, Água salgada, Água que me faz viver a cada passada;  Água do rio, Água neutra, Água do mar;  Água desperdiçada Água suja Água que cai em pé e corre deitada;   Água pura, Água tratada, Água reutilizada;  Água, Água,...,  Água, Água….,   Água que deságua no lago paranoá  Água cristalina,  Água do céu;  “Água de beber camará”

Receita aromática - Amanda Wanderley

Para sentir o cheiro da raiva, misture uma pitada de grosseria, ¾ de xícara de impaciência, um punhado de intolerância, uma colher de sopa de pisada no pé, um sachê de celular ligado no cinema, uma dose de andar sem máscara na pandemia e ½ colher de pernas pra que te quero. Mexa bem e inale antes de dormir.

Brasília - 1993 - Cecília Aprigliano

Brasília foi uma grande surpresa em minha vida. Outros rostos, outra paisagem.  A minha vinda para Brasília teve um gosto de festa. Estava com medo, mas a novidade de tudo me fazia ficar tão atordoadamente feliz.  Brasília era um mundo de horizontes em todos os sentidos. No geográfico, no emocional e no profissional. A geografia era obviamente tão distinta de tudo que eu estava acostumada, mas era maravilhoso. O sol brilhava muito forte, a luz entrava nos olhos e no nosso corpo de uma forma quase revigorante. Recordo-me do dia que cheguei : a o sair do aeroporto a luz do sol invadiu  meu  corpo, através dos olhos, que não esperavam uma luminosidade tão intensa.   Fui tão bem recebida pela Brasília de amplos horizontes e por amigos queridos. Ia caminhando pelas superquadras com a certeza de que podia viver ali.  A minha profissão  ia crescer aqui, mas eu ainda não sabia.  Logo na chegada procurei colegas de profissão para entender as mi...