Pular para o conteúdo principal

Veias abertas - Richard Born Botto


Jade costurava as veias abertas da Amazônia. Pelo menos tentava. No eldorado de Oxum, as labaredas invadiam o palácio da rainha dos rios. Calor insuportável: milhares de graus no inferno ondulante. 

As folhas choravam em cima, e a grama corria embaixo. Os pássaros voavam. A costura não funcionava. O fio teimoso insistia em partir-se. Fechava-se uma veia, abria-se outra. Hades só podia estar brincando com ela. 


A barca estava chegando na floresta, e Caronte não queria nem cobrar o trajeto. Sequer um dracma. Alguém tinha de ajudá-la a refazer o fio. Parecia que nem o tridente de Poseidon dava jeito. Vida difícil na hileia. Vida? Que vida? Só restaram morte e fumaça.


Créditos da Arte: Restoration, de Jade Leyva Art

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 Água sólida, Água líquida, Água gasosa;  Água viva, Água morta, Água parada;  Água doce, Água salgada, Água que me faz viver a cada passada;  Água do rio, Água neutra, Água do mar;  Água desperdiçada Água suja Água que cai em pé e corre deitada;   Água pura, Água tratada, Água reutilizada;  Água, Água,...,  Água, Água….,   Água que deságua no lago paranoá  Água cristalina,  Água do céu;  “Água de beber camará”

Receita aromática - Amanda Wanderley

Para sentir o cheiro da raiva, misture uma pitada de grosseria, ¾ de xícara de impaciência, um punhado de intolerância, uma colher de sopa de pisada no pé, um sachê de celular ligado no cinema, uma dose de andar sem máscara na pandemia e ½ colher de pernas pra que te quero. Mexa bem e inale antes de dormir.

Brasília - 1993 - Cecília Aprigliano

Brasília foi uma grande surpresa em minha vida. Outros rostos, outra paisagem.  A minha vinda para Brasília teve um gosto de festa. Estava com medo, mas a novidade de tudo me fazia ficar tão atordoadamente feliz.  Brasília era um mundo de horizontes em todos os sentidos. No geográfico, no emocional e no profissional. A geografia era obviamente tão distinta de tudo que eu estava acostumada, mas era maravilhoso. O sol brilhava muito forte, a luz entrava nos olhos e no nosso corpo de uma forma quase revigorante. Recordo-me do dia que cheguei : a o sair do aeroporto a luz do sol invadiu  meu  corpo, através dos olhos, que não esperavam uma luminosidade tão intensa.   Fui tão bem recebida pela Brasília de amplos horizontes e por amigos queridos. Ia caminhando pelas superquadras com a certeza de que podia viver ali.  A minha profissão  ia crescer aqui, mas eu ainda não sabia.  Logo na chegada procurei colegas de profissão para entender as mi...