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De Mariana Costa








Faltava uma hora para o início do espetáculo. Thaís chegara cedo. Poderia desistir de comparecer ao evento se esperasse em casa, no seu quarto, rodeada pelas lembranças das quais ainda não se desfizera.

Acomodou-se na poltrona indicada no ingresso que amassara na mão. Ficava na extrema direita de uma fileira pouco além da metade da plateia. Um senhor calvo e bem vestido tentou puxar conversa, perguntando se era parente ou amiga de algum dos músicos. Thaís se esforçou para corresponder à simpatia do homem com um sorriso, mas ele logo percebeu seu desinteresse.

Checou o celular compulsivamente por alguns minutos e então as luzes se apagaram, anunciando o início do concerto. Por detrás do pano, nos fundos do palco, vislumbravam-se as silhuetas carregando seus instrumentos. A melodia suave começou e com ela as luzes aos poucos se acenderam.

Lá estava ela. Manoela. Discreta, rosto impassível. Apoiava o violino no queixo, alheia aos demais músicos. Thaís tentou desviar o olhar, mas no fundo nutria a esperança de que Manoela a avistaria ali.

Em seus devaneios, permitia-se imaginar que era a inspiração daquelas notas tão precisas.

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Créditos da Ilustração: @gallerymfnegraes
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