Pular para o conteúdo principal

O nome da rosa - Rosimar F. Mello


 

Lembrar-me do que vivi: hoje é um esforço. A vida parece comprida, enquanto vivida. Mas aquelas horas longas, impacientemente aguardadas, parecem todas uma só depois de consumidas, comprimidas, enfileiradas, amarradas em um nó. 

 

Cheguei a Brasília em agosto. A terra seca, vermelha e um céu de tirar o fôlego. A cidade mais jovem que eu, mas também difícil, angulosa, sem centro, sem esquinas, sem nomes nas ruas. 

E eu ganhei um nome novo: rosa. Era de brincadeiraquase um bullying, mas a brincadeira ficou séria. Presentes são, às vezes, assim. Mesmo os tortos. A rosa cresceu e tomou conta de mim. 

E era tão diferente de mim, que ganhou vida própria. Eu, claro, era aquela menina de cidade do interior. A rosa era outra, a dos palcos de teatro, dos poemas, dos novos amigos. 

E estava aí o conflito: havia duas mulheres em mim. Uma engenheira, outra poeta, uma toda o superego, outra toda o id. Eu trabalhava de dia. A rosa noturna escrevia poemas em guardanapos, pelos bares de Brasília. A criatura que a abrigava tinha o peito e a cabeça explodindo de dor.

E no Brasil turbulento dos anos 80, a vida ia num caminho estreito. O conflito se resolveu com a vitória da razão. Vitória magra, é verdade. A rosa abatida foi rebatida para o segundo plano, mas absorvida, temperando e colorindo sempre a minha vida. 

hoje, olha aí!, a rosa, a poeta, a escrevinhadora, a artista, querendo aflorar, desabrochar de novo.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 Água sólida, Água líquida, Água gasosa;  Água viva, Água morta, Água parada;  Água doce, Água salgada, Água que me faz viver a cada passada;  Água do rio, Água neutra, Água do mar;  Água desperdiçada Água suja Água que cai em pé e corre deitada;   Água pura, Água tratada, Água reutilizada;  Água, Água,...,  Água, Água….,   Água que deságua no lago paranoá  Água cristalina,  Água do céu;  “Água de beber camará”

Receita aromática - Amanda Wanderley

Para sentir o cheiro da raiva, misture uma pitada de grosseria, ¾ de xícara de impaciência, um punhado de intolerância, uma colher de sopa de pisada no pé, um sachê de celular ligado no cinema, uma dose de andar sem máscara na pandemia e ½ colher de pernas pra que te quero. Mexa bem e inale antes de dormir.

Brasília - 1993 - Cecília Aprigliano

Brasília foi uma grande surpresa em minha vida. Outros rostos, outra paisagem.  A minha vinda para Brasília teve um gosto de festa. Estava com medo, mas a novidade de tudo me fazia ficar tão atordoadamente feliz.  Brasília era um mundo de horizontes em todos os sentidos. No geográfico, no emocional e no profissional. A geografia era obviamente tão distinta de tudo que eu estava acostumada, mas era maravilhoso. O sol brilhava muito forte, a luz entrava nos olhos e no nosso corpo de uma forma quase revigorante. Recordo-me do dia que cheguei : a o sair do aeroporto a luz do sol invadiu  meu  corpo, através dos olhos, que não esperavam uma luminosidade tão intensa.   Fui tão bem recebida pela Brasília de amplos horizontes e por amigos queridos. Ia caminhando pelas superquadras com a certeza de que podia viver ali.  A minha profissão  ia crescer aqui, mas eu ainda não sabia.  Logo na chegada procurei colegas de profissão para entender as mi...