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Soul - Virgínia Ferreira


Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala.

Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro.

Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais caio para dentro do apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. Derreteram-se um no outro.

É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e pumba, fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto.

O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora.

Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A mão na bunda. A respiração suspensa que volta e murmura prazer.

Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças.

Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca. 

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