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Sobre os artistas - Para Bruno Sandes - Lorena Santos

  Créditos da imagem: Jacobs School of Music Marketing and Publicity

A História de José - Thaís Dorneles Pinto

José tratava a si mesmo com desleixo, deixava o cabelo comprido e embaraçado. Sua magreza tornaria qualquer roupa larga demais. Andava tropeçando nas calças, que só se mantinham no corpo por conta de um velho cinto de couro, preso sempre no último espaço.  Nas raras vezes em que saía de casa, as crianças da vizinhança, entre risos de deboche, o chamavam de “náufrago”. Ignorava os olhares dos adultos, mas aqueles pequenos diabinhos lhe entravam na carne. Uma a uma, as tarefas rotineiras da vida haviam se tornado um estorvo. Demandavam uma energia extraordinária e José, eventualmente, as aboliu. Olhava para si mesmo com assombro, sabia que se tornara um ser estranho, um personagem.  Encontrara o mínimo denominador comum para manter-se vivo. Sobrevivia do que era desprezado pelos outros, comida estragada, água salobra, roupas rasgadas... A casa pequena de madeira herdada do avô era a única barreira à indigência.  Embora fosse pouco frequente, o único traço de dignidade que p...

Alegria - Mariana Munhoz

A alegria tem o som da voz da minha avó perguntando como foi o meu dia. Tem também o som da música que ouvi com minha mãe num dia feliz. A alegria não faz barulho incômodo. É cadência de notas musicais que se combinam, em ritmo perfeito e harmonia em escala maior. É mesmo como música gostosa de escutar. A alegria tem o som da chave virando na porta quando meu amor volta para casa.

A Raiva - Mariana Munhoz

A raiva tem cheiro de pólvora queimada. Veio de repente, num pipoco. Veio de dentro, num impulso visceral incontrolável, maior do que eu.  Não cabia mais no meu estômago. Veio como explosão e queimou o que ainda havia de nós. Deixou cheiro de queimada, cheiro de fumaça que sufoca. créditos da imagem:  https://www.thoughtco.com/gunpowder-facts-and-history-607754

Saudades poliglotas - Juliana Silva Gama

  Saudade sentimos quando o silencio entre pessoas comunica mais que as palavras; quando afinamos o tom do nosso cantarolar ao da música super famosa que toca nas rádios estrangeiras; quando a presença graciosa de nossos corpos não passa despercebida na multidão de outras corporeidades quase iguais. Como escrever uma palavra que abranja tantas emoções? Como destrinchá-la em frases enormes que possam tocar a alma, sem falar a mesma língua? Os pequenos e silenciosos desencontros da vida nos lembram sempre de que não é possível funcionar sempre na mesma rotação, ter o mesmo horizonte e se apropriar apenas de um idioma. É preciso ser bilíngue ou melhor... poliglota! de palavras, de olhares, de silêncios e pesares. Engana-se quem pensa que assim a saudade passará. Talvez ela venha em dobro: a cada novo mergulho cultural, somam-se novas saudades antes desconhecidas. A imagem é da artista plástica Beatriz Milhazes