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Sou - Wandréa Marcinoni

Preciso acalmar urgentemente o meu pensamento. Que não me cause mais transtornos. Que pare de desobediências. Pois que ando cheia dessas idéias desarrumadas e amontoadas umas sobre as outras. O que verbalizo é distorcido. Pois falo apenas o necessário e superficial. Não sou do tipo que expõe aos quatro cantos suas verdades. Não sou das mentiras. Nunca fui. Sou mais daquelas que têm vitrines nos olhos. Daquelas que pulsam o peito. Daquelas que tremem de emoção. Sou do choro fácil. Sou do riso ingênuo. Sou da vida. Sou da alma. Sou da dor. Sou até não poder ser. Sou até não poder. Sou até não. Sou até. Sou.

O incômodo - Wandréa Marcinoni

Take 1 João sentia um incômodo. Era algo como uma pedra no sapato que ele tentava insistentemente retirar, como o sabor de algo muito doce. Doce como rapadura. Não era segredo sua preferência pelo salgado. Ou ainda como um barulho irritante, tal qual um mosquito zumbindo ao pé do ouvido. Mas não, era algo mais duro. Take 2 Vejo João. Ele está sentado ao centro de uma sala com piso amadeirado, em uma cadeira com pés palito, em frente a uma ampla janela. Tem uma carta nas mãos. Posso lê-la. Diz assim: " João, depois de 20 anos de casada, estou indo embora. Cansei de ser um incômodo. Cansei de ser sua pedra no sapato, o sabor doce que você detesta, o barulho do qual você reclama. Vou embora pra Pasárgada! Mas lá não há Rei, chefe, autoridade, ditador, sentado no sofá, assistindo futebol, me exigindo uma cerveja. Lá não tem quem defina minha roupa, ninguém para me mandar equilibrar em cima de um salto ou falar coisas que uma dama falaria. Volto pra minha ...

Sobre raiva, culpa e tristeza

Quando a primeira árvore tombou, não me doeu tanto. O ser racional em mim, lembrou: “já era o plano, não tem jeito! A projeção desse prédio um dia ia acontecer.” Foi quando a terceira árvore caiu e eu vi o passaredo voando em desespero que meu coração apertou. Sinto agora culpa por não ter me condoído pela primeira árvore. Passei a semana em dor e raiva por esses seres silentes assassinados diariamente na minha frente. A vontade é de ir lá embaixo e quebrar essa maldita barulhenta serra que destrói o que meu olhar se acostumou a apreciar, minhas vizinhas.  Os homens, simples e pobres, não têm culpa, mesmo assim tenho raiva deles, coitados. Raiva e pena porque são eles e não os mandantes que têm que ouvir as reclamações, os desaforos dos outros vizinhos mais corajosos ou mais desesperados que eu que vão lá com eles ralhar. Eu fico e fiquei aqui com a minha dor, vendo agora um lindo bando de borboletas amarelas em debandada.  Em breve não ouvirei mais os pássaros ...

Tudo é por enquanto - Talita Pinheiro

As cólicas do bebê  O trânsito parado Um amor não correspondido O pavor do escuro A busca do desempregado O medo do desconhecido A dor de um luto Uma noite de insônia A infecção urinária Os dias de luta Todo e qualquer pranto Tudo é por enquanto Isso te conforta ou te preocupa? O saldo na conta bancária A neve na Estônia A sonhada promoção A esperança de que ela mude O calor de um abraço O tônus muscular A euforia da juventude As férias de verão A glória do sucesso A bateria do celular O colo de mãe Tudo é por enquanto  Isso te preocupa ou te conforta?

O Ovo - André Lima

Um goblin estava passeando. Ele era verde, tinha orelhas pontudas para cima e cantava: "Lá lá lá lá Hoje, meu dia maravilhoso Nada pode atrapalhar..." Ele seguiu pelo seu caminho quando achou um ovo rosa, brilhante e bonito. O goblin, que estava com muita fome, preparou o ovo para cozinhar. Fez uma fogueira, e quando foi quebrar o ovo... Na verdade, o ovo era uma criatura disfarçada. Sua espécie se chama "Ovaldus". Ele devorou o goblin e se camuflou para enganar o próximo que vinha passeando e cantando... Crédito da foto: Shuttershock Image Bank

Veias abertas - Richard Born Botto

Jade costurava as veias abertas da Amazônia. Pelo menos tentava. No eldorado de Oxum, as labaredas invadiam o palácio da rainha dos rios. Calor insuportável: milhares de graus no inferno ondulante.  As folhas choravam em cima, e a grama corria embaixo. Os pássaros voavam. A costura não funcionava. O fio teimoso insistia em partir-se. Fechava-se uma veia, abria-se outra. Hades só podia estar brincando com ela.  A barca estava chegando na floresta, e Caronte não queria nem cobrar o trajeto. Sequer um dracma. Alguém tinha de ajudá-la a refazer o fio. Parecia que nem o tridente de Poseidon dava jeito. Vida difícil na hileia. Vida? Que vida? Só restaram morte e fumaça. Créditos da Arte: Restoration, de Jade Leyva Art

Espelho - Paula Barbosa

Custou-me uma eternidade na terapia para perceber que sou igual à minha mãe. Do cabelo cacheado ao tique de abrir as narinas quando minto, sou toda ela. Sou constante, volátil, frágil, fortaleza. Sou o espelho da alma de dona Lúcia. Mas é na dificuldade de amar que mais me sinto ela. Dona de um coração aberto ao afeto, minha mãe sempre se dispôs a doar, corpo e alma, sem esperar contrapartida. Não esperava amor em retribuição. Tampouco desilusões e rasteiras. Isso, jamais esperava, apesar de ser o troco que ganhava de meu pai, seu Ernesto. Vivi minha infância a decifrar a falta de abraços que permeava meus genitores, enquanto, na casa de amigos, o amor se consolidava como característica comum dos senis.   Construí meus amores, desde o mais pueril, na mesma fôrma do desgosto.  Amargo a minha incapacidade de entrega e gasto rios de dinheiro no resgate de quem poderia ter sido.